Wednesday, January 30, 2008

"Da árvore no monte"

"Os olhos de Zaratustra tinham notado um jovem que o evitava. E, uma noite, quando caminhava sozinho pelos montes que circundam a cidade chamada A Vaca Pintalgada, eis que deparou com esse jovem sentado no chão e apoiado numa árvore, contemplando o vale com olhar cansado. Zaratustra agarrou a árvore à qual o jovem estava apoiado e assim falou:
'Se eu quisesse sacurid esta árvore com as mãos, não o conseguiria.
Mas o vento, que não vemos, flagela-a e verga-a para onde quer. Nós somos flagelados e vergados, do pior modo, por mãos invisíveis.'
O jovem, então, levantou-se espantado e disse: 'Estou ouvindo Zaratustra e, justamente, pensava nele.' Zaratustra respondeu:
'E te assustas por isso? Mas passa-se com o homem o mesmo que com a árvore.
Quanto mais quer crescer para o alto e para a claridade, tanto mais suas raízes tendem para a terra, para baixo, para a treva, para a profundeza - para o mal. '
'Sim, para o mal!', exclamou o jovem. 'Como é possível que descobrisses minha alma?'
Zaratustra sorriu e disse: 'Muitas almas há que nunca serão descobertas, a não ser que, primeiro, as inventemos.'
'Sim, para o mal!', voltou a exclamar o jovem.
'Disseste a verdade, Zaratustra. Eu mesmo não confio mais em mim, desde que desejei atingir o alto, e ninguém confia mais em mim; como se dá isto?
Eu me transformo demasiado depressa: o meu hoje refuta o meu ontem. Pulo, amiúde, os degraus, ao subir - e isto nenhum degrau me perdoa.
Se estou no alto, acho-me sempre só. Ninguém fala comigo, o gelo da solidão me faz tremer. Que pretendo no alto, afinal?
Como me envergonho do meu subir e tropeçar! Como escarneço o meu violento arquejar!Como odeio quem voa! Como me sinto cansado, no alto!'
Calou-se, nesse ponto, o jovem. E Zaratustra contemplou a árvore, junto da qual estavam, e falou assim:
'Esta árvore ergue-se solitária, aqui, no monte; cresceu muito, sobreexcedendo homens e animais.
E, se quisesse falar, não acharia ninguém que a compreendesse: tamanha altura atingiu.
Agora, está à espera e não cessa de estar à espera - à espera de quê, afinal? Mora perto demais das nuvens: estará à espera do primeiro raio?'
Depois que Zaratustra disse isso, o jovem exclamou, gesticulando vivamente: 'Sim, Zaratustra, dizes a verdade. Minha destruição eu desejava, quando quis subir, e tu és o raio do qual estava à espera! Olha: que sou eu ainda, depois que apareceste? Foi a inveja de ti que me destruiu!" Assim falou o jovem, chorando amargamente. Zaratustra, porém, pôs o braço em torno dele e o levou embora consigo.
E, após caminharem juntos por algum tempo, entrou Zaratustra a falar assim:
'Sinto meu coração despedaçar-se. Melhor do que as palavras, o teu olhar me diz todo o perigo que corres.
Ainda não estás livre, ainda procuras a liberdade. Tresnoitado e insone, faz-te essa procura.
Queres alcançar as livres alturas, a tua alma está sequiosa de estrelas. Mas também os teus maus impulsos têm sede de liberdade.
Sair para a liberdade, querem os teus cães ferozes; latem de alegria em seu porão, quando o teu espírito visa a abrir todas as prisões.
Ainda és, para mim, um preso imaginando a liberdade: sagaz torna-se a alma de tais presos, mas também, ai de nós, velhaca e baixa.
Ainda precisa purificar-se o liberto no espírito. Muita prisão e mofo ainda permanecem nele; cumpre que o límpido se torne o seu olhar.
Sim, conheço o perigo que corres. Mas, pelo meu amor e esperança, eu te imploro: não deites fora o teu amor e esperança!
Ainda te sentes nobre e nobre ainda te sentem também os outros, que te guardam rancor e te lançam olhares maus. Aprende que um homem nobre é um obstáculo no caminho de todos.
Um obstáculo também no caminho dos bons, é um homem nobre; e, mesmo quando eles o dizem um bom, querem, com isso, arredá-lo dali.
Coisas novas, quer criar o homem nobre, e uma nova virtude. Coisas velhas, quer o bom, e que o que é velho seja conservado.
Mas não esse, o de tornar-se um bom, é o perigo que corre o homem nobre, senão de tornar-se um descarado, um zombador, um destruidor.
Conheci homens nobres, ai de nós, que tinham perdido a sua mais alta esperança. E, então, caluniavam todas as altas esperanças.
Descaradamente, então, viviam em prazeres de breve duração e já não lançavam meta alguma para além do mesmo dia.
'O espírito é também volúpia", diziam. Então, partiram-se as asas de seu espírito, que, agora, rasteja por aí, emporcalhando tudo o que rói.
Tinham pensado, outrora, em tornar-se heróis; não passam, agora, de libertinos. E o herói é, para eles, um objeto de raiva e horror.
Mas, pelo meu amor e esperança, eu te suplico: não deites fora o herói que há na tua alma! Conserva sagrada a tua mais alta esperança!'
Assim falou Zaratustra."

(Friedrich Nietzsche)


Esse é um dos livros mais fodas que já li, mesmo ainda não tendo acabado.
Amor, amo você!

4 comments:

Tecnologia - O Mundo das Novidades said...

amei o texto minha vida!!!
muito foda!!!
o impressionante que esses pensadores, não importa o tempo que foi escrito suas idéias, sempre serão atuais, e cada vez que somos destruídos por nós mesmos esses relatos são mais verdadeiros!
Te amo minha vida!!
vou comprar esse livro!

Catarina F. Saraiva said...

Sou totalmente leiga em leitura/literatura geral, mas lendo esse texto, achei interessantíssimo as palavras, a idéia.

Qual livro é??
Beijos linda! Quero ler textos seus!!!!!

Anonymous said...

oi......em pensar q fui eu q te dei esse apelido....

Saudades...

beijo

Tiago

Jalila Eos said...

Ei, linda! tenho blog tb ^^
http://www.lillake.blogspot.com
sou lá do fotolog /lillake_
aparece, sumida!
=*