Monday, October 29, 2007

Nitidez da alma

Faltavam-lhe modos. Não tinha lá jeito pra essas formalidades da vida, não se focava no passado, e menos ainda com o futuro. Era ela, puramente dito.

Estava. Disso sabia, - era óbvio -, sabia também porque, mas não mostrava expressamente o que lhe palpava o peito – ou não sentia. Não gostava de efusões, menos ainda de extremos.

Tinha lá seus sonhos, seus gostos da vida, suas preferências, mas nada era intenso, exceto teu brilho. Era fácil notar a existência dela, sua ausência de jeitosidade com o mundo, seus cabelos caídos frente os olhos, sua tranqüilidade e sorriso manso, tudo, tudo nela era adorável. Até mesmo tamanha magreza, até mesmo os ossos estufados mostravam excelência. Era concebível.

Não ligava para o mundo, apesar de aceita-lo, mas ele sim, tinha uma atenção toda virada pra ela, em cada movimento saudoso que era, a meus olhos, fascinante.

Não era surpreendida, mas sabia exatamente como surpreender.

Seguia apenas, com a mais equilibrada das dosagens.

Wednesday, October 24, 2007

Aula de biologia

Perdi o encanto da vida,
Perdi-me no desencanto.
Vejo lástimas rondando mundo afora, enquanto o tempo não para.

Aprende-se com dor,
Apanha-se e descobre.
Há sofrimento,
Há corrupção,
Há luxúria.
Somos um mesclado. Uma receita de bolo mal feita. Um erro de culinária.

E o relógio tiquetaqueava...

Há executivo querendo relva molhada nos pés, há camponesa sonhando se globalizar. Há bronca.

É mesclado que não pode mesclar,
É receita que não pode errar,
É mundo.

É isso.
É aquilo.
Aquilo que não pode ser.

Enquanto utopias se dissipam, aviões explodem, burguês contrabandia, negro se sente inferior.

É isso,
É Deus,
É dízima,
É a reza que ajunta mãos caleijadas e dobra joelhos sem cálcio.

São os olhos sem brilho,
É criança sem doce,
É amor que não dura,
É realidade.

Thursday, October 18, 2007

Recaptulei-me.
Partia eu, ao longo de pastos desertos e secos, sem sequer saber onde ia.
Quero-me. Quero-me perto. Quero-me aqui, bem aqui.
Traga pedras, espinhos, traga feridas, traga. Trago.
E o relógio tiquetaqueava...


Onde estás, orgulho? Onde foras parar?
Por algum acaso, se perdera nos raros orvalhos.
São incertezas... É tudo. É só.

Wednesday, October 03, 2007

Grito inócuo

Eu os olhava, observando cada pequeno detalhe que mal pudesse vir a chamar a atneção das demais pessoas. Eles. Pequenos, frágeis, livres, sozinhos, amargurados. Eles. Pequenos adultos, diga-se de passagem.
Mantive-me imóvel, observando. Ora um deles fitava minha bolsa com jeito animalesco, como o predador diante sua presa. Mal via ele se eu o observava, se meu olhar era de pena ou curiosidade, não tinha encantos para isso, se importava apenas em vender o restante de balas existentes dentro da caixa, que se mantinha cheia.
Pequenos temas da patologia social. Sujos, miseráveis, animalescos! Quase uma renúncia ao belo e ao agradável, uma obra naturalista viva, defronte minha pessoa. O mais degradante e amargo, - feito aqueles pequenos corações -, era o contraste que me fazia aos olhos entre as crianças dentro dos carros parados no sinaleiro, recheadas de infância e brinquedos como mp3, enquanto, na janela do mesmo carro importado e luxuoso, os pequenos seres imploravam pela compra das balas que vendiam. Cena angustiante, contraditória e pitoresca, que me fez direcionar um sorriso sarcástico e desprezível à sociedade.
Era noite. Eu havia saído de casa após uma briga com meus pais, uma pequena discórdia de opiniões. De repente, reconheço o rosto do menino de olhar animalesco, era o mesmo garoto que aparecera nos jornais cerca de um mês antes: assassinara os pais após vê-los abusando sexualmente de sua irmã mais nova. Por aquele dia bastava. Comprei as balas restantes na caixa do garoto e retornei para casa.

Monday, October 01, 2007

Toque de simplicidade.

Descobri que vivo de abstinência. Fim.